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Apresentados

O trabalho como custo variável e capital descartável

Um homem ou mulher saiem de manhã para o emprego. Antes, a labuta das tarefas domésticas a deixar cumpridas, o arranjar dos filhos, alguns a deslocação para a escola e a odisseia dos transportes públicos. Mesmo que o sol raie em todo o seu brilho, muitos levam às costas problemas por resolver ou contas para pagar. Um empurrão aqui, um ajeita para ali lá se acomodam nos autocarros. Melhor ou pior dormidos têm que estar a horas nos respectivos postos de trabalho. Este mundo que os envolve não se queda à porta do local de trabalho acompanha-os por largos períodos de tempo e agravam a sua disposição laboral.
E será que o ambiente laboral é um meio de colmatar as preocupações que já têm ou ainda as vai agravar? Muitos têm chefias mal preparadas, trabalhos pouco desafiantes e perspectivas de estagnação longas. Quantos não se sentem descartáveis? Recibo verde e contractos mensais. O fim do mês tão ansiado vem com notas de impostos elevados e os montantes brutos quedam-se magrinhos.
É o tempo…

Come chocolate pequena; come chocolates!

Os portugueses andam radiantes. Cumpriu-se a profecia dos três F. Les portugais sont toujours gais.
Dado que o S. L. e Benfica é uma nação (seis milhões de adeptos, dizem), a nossa canção, finalmente ganhou a Eurovisão, a qual já ninguém via porque sistematicamente éramos derrotados e o Papa Francisco veio a até nós para nos consolar deste triste vale de lágrimas onde vivemos, suportando alegremente uma crise que sempre nos vai aos bolsos.
Claro que os políticos tiraram proveito mediático do caso e não me admira nada que já esteja reservado lugar no Panteão Nacional para o Bota de Ouro ou para o cantor.
2,6 milhões vivem no limiar da pobreza, outros milhões são remediados, temos uma dívida externa para lavar e durar, exportamos mais graças aos salários baixos, o custo da energia e gás é dos mais elevados da Europa, vendemos as jóias da Coroa aos estrangeiros e lutamos arduamente para ser bons súbditos de Bruxelas e quejandos. Menos mal que restauraram o feriado da Restauração da Independência ( para pelo menos nos lembrarmos do que já fomos no tempo em que havia carácter e patriotismo).
Já dizia a canção que o sonho comanda a vida e por isso sempre nos embrenhamos nos caminhos da ilusão perspectivada como real. Transferimos assim as nossas frustrações colectivas para aquele momento diáfano do golo, seja ele marcado com fora de jogo ou outra irregularidade. Não interessa que o jogo seja bonito ou bem disputado. Interessa é que alguém ganhe alguma coisa e nos faça emocionar e sentir como parte desse triunfo, mesmo que estejam só estrangeiros em campo.
Esta mistura do sentimento e do mediático tem algo de milagroso.
Como dizia Fernando Pessoa:
“Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.”

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